Porque não praticar boas ações

Tem coisas na vida que eu já deveria ter aprendido. Eu deveria saber que toda pipoca é ruim, independente daquele cheiro delicioso. Não adianta experimentar de novo, vai ser sempre ruim.

Deveria saber que praga de mãe sempre pega. Se ela disse que vai chover, pode levar um guarda chuva porque vai chover, mesmo que o dia esteja quente e seco ou que você more no meio do Saara.

Ah, mas tem coisas que eu deveria saber com maior intensidade. Por exemplo? Boas ações não valem a pena. Nunca. As boas ações te fodem, te jogam na sarjeta e te passam piolho. Elas são más, diabólicas, gastam a vida espreitando em busca de uma vítima desavisada que possa cair em seus golpezinhos baixos.

Eu estava já há algum tempo em meu bom caminho de tocar a vida sossegado quando, de repente, fui pego em uma arapuca. Doe sangue, Doe vida, eles disseram. E eu acreditei, tolinho.

Tudo começou aos dezessete anos. Essa é a idade em que você traça seus planos para o ano seguinte, quando uma enorme gama de possibilidades se abre com o advento da maioridade. Tem que ir no boteco e comprar uma cerveja, mesmo que você não vá beber, mesmo que você já tenha comprado outras – será sua primeira dentro do seio da legalidade.

E eu, deslumbrado com essas bobagens, resolvi que iria doar sangue. De fato quando eu entrei na maioridade, a coisa perdeu importância e foi esquecida. Hoje, porém, brotou aquele espírito carnavalesco (“Vou ajudar um bêbado acidentado”) e aceitei o convite de um amigo pra ir ao Hemocentro.

Chegando lá, já foi um enguiço pra achar onde fica o lugar. Logo quando chegamos na UNESP havia uma plaquinha dizendo “Hemocentro” com uma seta pro lado. Fácil, pensamos. Há! Vai prum lado e nada. Vai pro outro e nada. Sobe uma passagem mal feita que desemboca nos ambulatórios.

Nesse ponto a coisa começou a ficar desagradável. Eu odeio hospitais porque são cheios de gente doente e, especialmente, cheio de gente contagiosa. Ok, é neurose, mas eu sou assim e pronto. Passamos por filas e filas de pessoas que esperavam atendimento nas mais diversas áreas. Eu podia ver as infecções pulando dos doentes e correndo em minha direção. Aí vai um cara saudável, corre, pega!

Mas vá bem, sobrevivi. Entramos no hospital propriamente dito e – finalmente- achamos o tal do hemocentro. Descobri, pelas placas, que eles só trabalham até 16h30min. Eram 16h10min. Lá, todo mundo era feliz e sorridente, amável e receptivo. Já fiquei com um pé atrás! Por que raios um bando de trabalhadores poderia estar todo serelepe com uma besta que chega para tirar sangue faltando vinte minutos pro fim do expediente? Uma vítima, eles pensavam. Só podia ser isso.

A triagem da vítima (leia-se: eu) foi bem rápida: documentos, perguntinhas e picada no dedo pro exame preliminar. A partir daí fui separado do meu amigo, afinal, a caça fácil é a que anda sozinha. Fui encaminhado então para quem iria avaliar se estou saudável o suficiente para ser devorado vivo para doar sangue. A tal da mulher me perguntou se tive todas as doenças que possam existir no dicionário. Pelo menos foi fácil de responder:

Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Mas hein?! Ah, isso também não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não.

Depois das perguntas era compulsório tomar um suquinho ou comer umas bolachinhas. Lembrou-me da história de João e Maria, sendo engordados pela bruxa. Bem, eu já estou em ponto de abate, então foi dispensada a jaula e tomei só um suco daqueles de sabor artificial.

Tentei enrolar nessa parte para que meu colega fosse entrevistado e pudesse se juntar a mim, mas mal havia terminado o suco e uma enfermeira chamou meu nome. Ela também estava sorridente, mas já com um olhar maligno bem aparente.

Entrei na sala e me dirigi a um homem de jaleco. Ele grunhiu. Olhei em volta para ver se só eu havia reparado que o enfermeiro estava grunhindo e realmente ninguém mais parecia se importar. Ele apertou meus braços e grunhiu de novo. Depois mais uma vez. Foi nesse ponto que me dei conta de que ele deveria estar realmente grunhindo para mim, como numa primitiva forma de comunicação ininteligível. Com algum esforço e ajuda da mímica, entendi que ele me mandava lavar o braço.

Fui até a pia e lavei meu braço direito com água e sabão vagabundo. Depois puxei o papel descartável, mas saiu muito pouco pra eu secar o braço inteiro. Puxei mais forte e caíram umas duas dúzias de folhas. Disfarcei, sequei meu braço e joguei fora o excedente de papel.

Sentei na cadeira e comecei a ser examinado. O moço prendeu uma cordinha de borracha no meu braço e começou a apalpar na altura do cotovelo, mas no lado oposto. Fuçou aqui e ali, mas não pareceu satisfeito. Foi para o outro braço e repetiu o processo. Parecendo aborrecido, voltou ao braço direito, fuçou mais um pouco e grunhiu.

Após grunhir, saiu de perto de mim e outro enfermeiro se aproximou. Esse até falava de verdade. Nessa hora eu já estava com o cu piscando, pois com certeza essa indecisão toda não podia ser coisa boa. O novo enfermeiro apalpou também, mas não consegui achar a maldita veia. Mesmo assim, resolveu tentar a sorte.

Pára a cena e vamos fazer uma reflexão: tentar a sorte no braço dos outros é moleza. Até eu faço isso! Mete-se uma agulha no infeliz e fica rodando ela até sair sangue. Infalível. Ou quase.

Pois bem, ele chegou com a tal agulha, que mais parecia uma canaleta de telhado, tão grossa que era. Enfiou a bendita no meu braço e começou a fazer movimentos com ela lá dentro. Ficava rodando a agulha, pincelando, apertando. A cena me lembrou de uma cirurgia da lipoaspiração. Dava pra ver a agulha se mexendo dentro do meu braço, levantando a pele, rodopiando. O resultado? Nada. Nem uma gota de sangue.

Eis que no meio da tortura o carrasco se apieda e pergunta:

-Tudo bem?

Olha, tirando esse cano que você ta enfiando no meu braço e se divertindo com ele lá dentro, tudo ótimo, seu filhodeumaputamalcomida!

-Tudo sim, respondi.

E não pensem que ele se deu por satisfeito. Continuou brincando com a agulha, tentando perfurar uma veia a esmo até o braço cansar (o dele, pois o meu já estava farto há muito tempo).

Depois de tudo isso ele arrancou a agulha e disse “É, não vai dar”. Não vai dar! Eu faço uma viagem até a Unesp, ando na chuva, sou picado, entrevistado, medido, perfurado, torturado e o cara diz um Não Deu, como seu fosse a coisa mais bonitinha do mundo.

Depois ele perguntou se eu estava passando mal por causa da dor. Respondi que não. Ele deitou a cadeira, sem ouvir a resposta e me mandou descansar. Pura tática de guerra. Deitado ali eu fui capaz de ver o mesmo enfermeiro repetindo o procedimento em meu amigo para obter praticamente o mesmo resultado.

Quando alguém teve a boa vontade de levantar a maldita cadeira, nós dois fomos despachados sem dó. Saíram correndinho logo depois da gente, desligaram a TV da sala de espera, recolheram as comidinhas e foram embora. Ficamos nós dois lá, com cara de bobos, chutados depois da tortura.

Para compensar, passamos em um café e tomamos um expresso. Enquanto bebia, cuidei de memorizar as três lições do dia:

1) Jamais praticar uma boa ação propositalmente

2) Jamais tentar ser atendido no fim do expediente

3) Quando a coisa começar a feder, CORRA antes que te peguem! Se botarem a mão em você, não tem mais volta.

No final, perdi um dia e ganhei um braço dolorido. Azar dos motoristas embriagados de carnaval. Pelo menos eu não peguei piolho.

9 respostas a Porque não praticar boas ações

  1. Ger diz:

    :rofl:

    Que bom que você avisou. Logo, logo eu atinjo a maioridade, é bom estar precavido ^^

  2. toutemavie diz:

    ROFLMAO! Tadinho do meu saitor! ><

  3. Isabel diz:

    :rofl:

    Eu sou mais sortuda que vc: não passei pela triagem inicial pq não sou gordeeenha o suficiente pra doar sangue xD

  4. Menegroth diz:

    Vou dizer uma coisa pra vc….

    O lugar que eu faço a doação de sangue é tão bom que eu até sinto falta de ir lá….
    Acho que vc deu azar

  5. alanie diz:

    Meeeu, vai ser azarado assim só na UNESP mesmo!

    Se bem que eu até pensava em doar sangue, mas depois da sua descrição, eu, hein, não quero pegar piolho também! =P

    Ah, e sobre os spoilers do livro, não são tããão spoilers assim, pq eu não conto o final. ^^

  6. Snaga diz:

    hahahahahah!!! LOLzilla!!!
    Desculpa tá me divertindo às suas custas, mas eu li isso daí duas vezes e to rachando o bico aqui! haha!!
    É a primeira vez que vejo alguém ser contra a doação de sangue!!!

  7. Bagrong diz:

    Ok, deixa eu esclarecer uma coisa: o texto aí é um humor que eu fiz sobre um péssimo dia e a frustração de não ter consigo doar o sangue, mesmo depois das agulhadas. É claro que eu não penso de verdade que todo mundo era atencioso só como forma de disfarçar que iam me maltratar. E também não acho que eles tenham planejado isso com antecedência, né? Hahaha!

    O texto foi feito com uma visão posterior, só pra fazer graça em cima da minha situação. Não acho que vocês devam deixar de doar sangue por causa dele.

    Minhas veias sempre foram ruins de pegar. E o lugar era realmente acomchegante e cheio de gente boazinho. Eu dei uma “nova cara” aos acontecimentos, só pra efeito de humor.

  8. natalia diz:

    Gostei da sua forma de escrever. Eu também decidi doar sangue assim que fizesse 18 anos e doei e deu tudo certo, porém quis doar uma segunda vez e não deixaram, pois eu não tinha peso suficiente e pelo jeito vou continuar sem doar, a menos que os doces que como façam o quadruplo de efeito. Até tenho uns cinquenta e dois kilos, mas eles não deixam.

  9. Marcella diz:

    É claro que existem imprevistos na hora de doar sangue, mas nenhum se comprara a açao de salvar uma vida, lembre se disso, lembre se que quando as pessoas lerem seu texto vao pensar duas vezes antes de doar e existe uma criança em um hospital eserando por esse sangue..
    Bom acho que vc devia ter um pouco mais de conciencia e escolher melhor os assuntos dos seus textos.

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