A última Aurora

Dia após o outro o sol vem e vai, como se permanecesse alheio a tudo o que ocorre com os que giram em torno de si. Civilizações surgiram e viraram pó, espécies se desenvolveram e foram extintas, guerras derramaram mais sangue do que temos hoje nas veias, mas o sol nunca parou. Ele somente vem e vai.

Num dia comum, numa cidade comum, num país comum o sol nasceu mais escuro, pois uma densa névoa encobria todo o céu. Naquele dia o frio foi intenso e as pessoas sentiram-se tristes, solitárias. O sol continuava a nascer, dias após dia, mas a névoa não cedeu. A cada minuto o astro parecia maior e mais vermelho, mais fraco e mais frio.

Naquela manhã as pessoas saíram de suas casas e não viram o Sol. As crianças estudaram, os pais trabalharam e os relógios apontaram meio dia, mas o Sol não estava em riste, no alto do céu. Ele simplesmente não estava.

As noites, então, passaram a se confundir com os dias e já não havia mais luz natural, com exceção à das estrelas. Os cidadãos não mandaram seus filhos para a escola, nem foram ao menos trabalhar. Ficaram todos em casa, sentados, esperando o fim que os profetas bradavam em alto tom nas ruas vazias.

Os fanáticos religiosos açoitaram-se até as mãos doerem mais que os ferimentos, as igrejas ficaram cheias de almas clamando por piedade e todos começaram a viver tudo o que queriam ter vivido, mas já não teriam mais tempo de fazer.

Relógios já não tinham mais validade alguma, as leis não existiam mais. Todos os prisioneiros foram soltos para morrer com suas famílias, as guerras cessaram e cada único homem vivente no planeta Terra amava aquele ao seu lado, pela compaixão que só a morte é capaz de trazer.

A humanidade parou para esperar seu fim. E esperou. Aconteceu, porém, que o tempo se arrastou, mas o fim não veio. Aos poucos as pessoas notaram que ainda permaneciam vivas e uma onda insuperável de felicidade encheu as ruas, as casas, os templos, as cidades.

Passada a alegria ainda faltava algo, o povo ainda não sabia o que fazer. O sol não nascera e não nasceria nunca mais. As vidas poupadas decidiram, então, prosseguir com suas tarefas cotidianas e as fábricas abriram suas portas, assim como as escolas e tudo o mais.

Com a nova situação, o que antes era noite tornou-se dia, pois havia certa iluminação, vinda das estrelas, e o dia tornou-se noite. Os novos dias eram sombrios, mas ainda eram. Cada ser humano agradecia em seu íntimo a oportunidade lhes cedida. Cada ser humano agradecia em seu íntimo a vida que ainda trazia no peito.

Tamanha foi a gratidão que todos os pecados foram perdoados, as cadeias ficariam vazias, pois ninguém mais foi preso, nem voltou a cometer um crime. Nenhuma guerra varreu a superfície de qualquer país. A humanidade estava em paz. A paz era gélida, escura.

Longos anos se passaram e a lembrança daquele que um dia iluminou toda a Terra apagou-se, como se apagam as marcas na areia após o vendaval. A nova geração já não trazia junto de si a gratidão por estar viva. O mundo se tornou mais sombrio e minuto após minuto, hora após hora, ano após ano, a raça humana definhou.

Definhou pela falta de calor, por falta de amor, por falta de vida. Aqueles que ficaram por último já não comunicavam-se entre si, apenas se olhavam, rápida e friamente, e continuavam suas tarefas, que já não serviam mais para o bom andamento da humanidade.

Quando a casa dos homens definhava e o último dos seres humanos via-se muito perto de seu fim, ele pode presenciar algo completamente diferente de tudo o que já ouvira falar. Pequenos raios luminosos despontaram no horizonte, iluminado tudo o que havia a sua volta. As árvores, os lagos, a cidade e os animais, tudo era claro e espantosamente belo.

De imediato o coração deste homem solitário encheu-se de alegria e amor por tudo aquilo que ele agora podia ver. Mas, principalmente, encheu-se de amor por aquele horizonte vermelho, por aquela bola flamejante que lhe mostrava seu própio mundo. Foi a única aurora vista por um homem em milhares de anos. Aquela que iluminou um planeta escondido e libertou das trevas criaturas desesperançadas foi a última aurora vista por homem.

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