A maldição com asas

Uma das grandes vantagens de ser Deus é que Ele tem sempre alguma coisa para fazer. Ao se ver entediado, pode brincar mandando um terremotozinho aqui, um furacão ali, um filho veado praquele cara feioso e assim passar os longos séculos de sua eterna existência.

Certo dia, muitos e muitos séculos no passado, o Todo Poderoso cansou de jogar suas pragas habituais nas cidades pagãs e resolveu se atarefar com novos afazeres. Pegou um pedaço de pergaminho, uma caneta Bic e usou toda a sua imaginação para criar a pior praga de todas – a que jamais deixaria os homens descansarem e que atormentaria cada ser vivo na face da Terra.

Dessa vez Ele nem precisou de sete dias, em três ou quatro já havia terminado os esboços e no quinto dia fez o desenho final de sua obra mais maligna. Claro, as funções de cada Ser estavam bem claras em sua cabeça, e ele sabia que na posição de Deus deveria propagar o bem, a alegria e as balinhas de Caramelo, então guardou sua invenção numa gaveta e lá se esqueceu dela.

Passados alguns anos Ele resolveu que iria trazer um gigantesco terremoto para os infiéis da China. Calculou tudo meticulosamente e mandou a desgraça aos olhos puxados. Infelizmente o Senhor estava péssimo de matemática e errou a altura do seu terremoto, criando um resultado que não poderia ser mais catastrófico: todo o céu tremeu, derrubando anjos, arcanjos, santos, e uma grande escrivaninha de Carvalho, que esburacou o chão ao cair e liberou no mundo muitos dos desenhos secretos Dele.

Deus, porém, não se preocupou com a escrivaninha – pelo menos não naquela hora – ele tinha um problema muito maior na cabeça: centenas de milhares de seus anjinhos pelados estavam agora na Terra, desamparados e assuntados. Mas a pior parte não era essa: o custo para trazer todo mundo de volta era elevadíssimo e o céu não tinha tanta verba para tal feito. Foi assim que nasceram os Anjos da Guarda.

Já o Diabo, que nunca foi bobo, saiu do calor nordestino de seus aposentos e se apressou a recolher os desenhos do Senhor. A maioria deles eram apenas mulheres nuas, protótipos de Arpas e havia alguns catálogos de tapetes também, mas um desenho valeu a pena, um deles era mais do que o própio Diabo podia pensar.

De volta ao mármore do Inferno, o Coisa-Ruim estudou detalhadamente o desenho: era uma máquina de guerra potentíssima, que voava, espetava com suas garras, arrancava pele com sua afiada boca, liberava ácido úrico e guano no inimigo e ainda podia atormentar a todos com sua maligna voz.

Claro que o Vermelhinho não perdeu seu tempo: durante os seis meses que se seguiram Ele se empenhou em construir e dar a vida a essa criatura odiosa. Ao concluir sua obra, abriu os portões do inferno, formando uma grande cratera (que hoje é conhecida como Grand Canyon) e liberando a ruína da humanidade.

Em pouco menos de um ano, sua criatura reproduzira-se a ponto de conseguir um exército suficientemente grande para atacar os homens e a partir de então nenhum povo jamais teve paz absoluta. As criaturas do Diabo, ou pássaros, como foram chamadas pelos homens, passaram a atacar cada cidadão terráqueo, mordendo-lhes, arranhando-lhes e defecando em suas cabeças.

Só então que Deus acordou. Ele arquivou de vez seu projeto de um terremoto na China e tratou de cuidar do problema que causara. Convocou os santos e os arcanjos para capturar suas invenções aladas, mas eles não deram conta do recado e muitas ainda ficaram livres.

Numa decisão desesperada, Deus enfeitiçou todos os penosos e, assim, fez com que eles parassem de atacar os homens. Claro, a magia Dele não funciona em todos os casos, mas o problema foi drasticamente diminuído.

Mesmo hoje em dia os mais atentos podem perceber que os aparentemente inofensivos pássaros são, na verdade, criaturas más e demoníacas. Esse tipo de sensibilidade infelizmente é pouco respeitada, já que os homens não dão mais tanto valor ao poder do Senhor, pois este cansou de jogar pragas indiscriminadamente nos homens depois que seu filho caiu pelo buraco que a escrivaninha fez no chão e resolveu bancar o herói na Terra.

Obviamente o Diabo não se aquietou em ver sua grande criação seriamente danificada e passou a trabalhar duro numa nova perdição para os Homens. Durante longos anos desenhou, riscou, apagou, construiu e reconstruiu aquilo que seria o aprimoramento da invenção divina. A nova versão deveria ficar menor, ser sanguessuga e menos aparente, mais demoníaca quanto ao barulho e com a mesma vantagem alada que a antiga. Foi assim que nasceram os Pernilongos.

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