Melhor Impossível

Janeiro 15, 2008

Eis, está feito. Melhor impossível, todos terão inveja! Muita inveja! Muita inveja de doer os ossos! Ou talvez não. Talvez Amir não tenha inveja, aquele velho mesquinho. Irma também, devassa das piores. Devassas não têm inveja, em geral. E Irma é extremamente devassa. A maior que conheço. Perderia para Linda, se esta ainda estivesse viva.

Linda… E ela nem era tão linda. Pais não deviam dar nomes assim aos seus filhos. Linda, Pinto, Aguiar, Castilho. Os dois últimos porque são muito feios. Castilho é outro velho mesquinho. Pai de Linda, pelo que diziam. Azar do Amir.

Magda sim, é mulher de respeito. Correu a vida com um homem só, o Luiz. Ou seria o Jonas? Droga, que isso importa agora que finalmente está feito? Acabado!

Cada micro dia valeu a pena. Se é que existem esses tais micro dias. Que coisa estranha! Aposto que aprendi com o Maurício, louco devaneado. Oras, quem faz devaneios é devaneado. Ou não. Mais uma do Maurício, decerto.

Olha! Que será isso? Parecem pontas soltas. Quiçá pareçam mais cabelos arrepiados. Como a maldita da Irna, sempre arrepiada. Foco! Será que está mesmo perfeito? Talvez não esteja tão bom. Talvez sequer esteja feito.

Sim, agora eu vejo, não está feito. Não poderia estar feito. Jamais poderia ser feito. Arre! Como é ruim! Pior impossível! Qualquer um teria vergonha disso. Muita vergonha! Muita vergonha de doer os ossos!

Menos o Amir, aquele velho mesquinho. 


Pai e Filho – Monstros

Fevereiro 10, 2007

Este texto precisa de uma introdução. Não porque ele seja complicado de entender ou algo do tipo, é só uma introdução explicativa.

Eu escrevi as linhas abaixo como uma redação escolar, lá pela sexta ou sétima série do ensino fundamental. O texto foi um dos escolhidos para compor um livro com redações de alunos, publicado algum tempo depois, ainda com o título “Filho e Pai”.

Já havia me lembrado dele no passado, mas fui incapaz de encontrar o livro da escola e não me lembrava bem do que estava escrito. Resolvi, então, criar algo nos mesmos moldes e publiquei Pai e Filho – Era uma Vez.

Eu, infelizmente, ainda não encontrei o livro, mas me deparei com o rascunho original, numa folha de papel de um fichário velho. Nele, há uma outra introdução, assim:

Durante à a madrugada, a porta do quarto do pai se abre e entra o filho no quarto:

Creio que hoje em dia já sei escrever um pouco melhor (melhor mas não muuuiito), mas achei legal deixar aqui registrado esse fragmento. Segue, então, o texto completo (e revisado). 

-Paiêêêê!

-O que foi, filho?

-Tem um monstro no meu quarto!

-Filho, não existem monstros.

-Não no seu quarto, no meu tem um montão!

-Quem disse?

-O Beto.

-Ah! O que é que seu irmão anda pondo na sua cabeça?

-Chiclete.

-Como?

-É, ontem ele colou um chiclete na minha cabeça…

-Oras, mas esse menino vai ver uma coisa!

-O quê?

-O que o quê?

-O que ele vai ver?

-Como assim?

-Você vai mostrar alguma coisa pro Beto e pra mim não!

-Eu só disse que vou dar uma bronca nele, filho…

-DISSE QUE ELE VAI VER UMA COISA!

-E vai!

-Buáááááá, eu também quero ver!

-Meu Deus, assim você me mata!

-Quêêêê?

-Quê o quê?

-Por que Deus ia querer te matar?

-Deus não, você!

-EU? EU NÃO!

-Eu sei, filho, eu sei…

-Sabe o quê?

-Que você não quer me matar…

-Ah, bom.

-Agora vai dormir.

-Posso dormir aqui com você?

-Outra vez?

-Por favor!

-Assim você não vai crescer nunca!

-Ótimo!

-Quê?

-É, eu não quero crescer.

-Esquece.

-Esqueço.

-Boa noite…

-Boa noite.


Life is a Beautiful Thing

Janeiro 18, 2007

-Tem que ser feito?

-Sim. Tem que ser feito.

-Então faremos?

-Sim. Faremos.

-Você acha que vai dar certo?

-Não. Não vai dar certo.

-Mas mesmo assim faremos?

-Sim. Faremos.

-Deveríamos fazer as coisas que nós sabemos que não vão dar certo?

-Sim. Deveríamos.

-Por quê?

-Pois se elas não acontecem, não darão errado.

-Não é isso que queremos, nada dando errado?

-Não. Não é isso que queremos.

-O que queremos?

-Que as coisas dêem certo.

-Mas isso não vai acontecer…

-Não. Iso não vai acontecer.

-Então nosso objetivo não será cumprido.

-Não. Nosso objetivo não será cumprido.

-Então por que devemos nos esforçar?

-Porque tem que ser feito.

-Algo que tem que ser feito, mas não vai surtir resultado, não perde sua obrigação de existir?

-Não. O que tem que ser feito, tem que ser feito.

-Vai ser trabalhoso?

-Sim. Será muito trabalhoso.

-Vai doer?

-Sim. Doerá em alguns momentos.

-Não seria mais fácil simplesmente permanecer onde estamos?

-Sim. Seria mais fácil.

-Então por que não fazemos isso?

-Por que não é para ser fácil.

-Mas nós sempre esperamos que seja fácil…

-Sim. Mas nunca o é.

-Onde estamos?

-No começo.

-Onde vamos chegar?

-No final.

-E não conseguiremos isso também?

-Conseguiremos isso.

-Quando?

-Antes do que queremos.

-O final vai nos levar ao nosso objetivo?

-Não. O final nos afastará dele.

-Por isso não vamos conseguir?

-Sim, o final chegará antes do objetivo.

-E o final, vai doer?

-Sim. O final será especialmente doloroso.


Putz

Setembro 3, 2006

-Putz.
-Putz o quê?
-Sei lá. Só Putz.
-Huumm.
-Hum o quê?
-Sei lá. Só hum.
-Ta bom…
-O que ta bom?
-Sei lá. Mas tá.
-Com certeza não é o governo Lula.
-Eu não sou o Governo Lula?
-Não, O Governo Lula que não está bom.
-Por que não está bom?
-Sei lá, só sei que está ruim.
-Hum…
-Já sei.
-Sabe o quê?
-O Hum. Foi só um Hum.
-É, foi mesmo.


Thinking

Maio 7, 2006

Andar, é melhor andar. Não, eles estão próximos. Andar mais rápido. Isso deve resolver. As pessoas na rua parecem estranhas. Não é mais possível vê-los. Retrovisor dos carros. Sim, é possível vê-los pelos retrovisores. A distância está diminuindo. Maldição, aonde foram parar os carros? Deveria haver carros estacionados nesta rua. Um Fiat. Não gosto de Fiats. Droga, estão se aproximando de novo. Correr. Sim, correr resolveu.

Uma velha. Parece simpática. Carrega um bebê. Lembra o pequeno Tomás. Gritos. Eles não deveriam ter gritado. Barulho. Mais gritos. Seriam tiros? Sim, eram tiros. Correr mais rápido deve ajudar. O outro Fiat foi atingido. Bem feito, eu não gosto de Fiats. O motorista deve ter morrido. Bem feito, dirigia um Fiat. Pessoas correm. O desespero cai bem naquela mulher.

Uma loja de roupas. Vestido azul. Mais tiros. Melhor virar a esquina. Pena, perceberam que virei. Não é possível me esconder. Elisa usava vestido azul. Caro. Pobre menino. Os jornais amanhã farão sensacionalismo. Será um policial? Parece um. Sim, é um policial. Crianças mortas geram sensacionalismo. Era japonês. Não gosto de japoneses. Pedir ajuda? Não, tenho que correr.

Pessoas normais. Sem medo. Olhar curioso. Não há perseguidores. Aonde foram parar os perseguidores? Sumiram. Elisa também sumiu. Vadia. Sim, lá estão eles. Uma moto. Aonde conseguiram uma moto? Roubada. Com certeza é roubada. Muro amarelo. Não gosto de amarelo. Jardim. Cachorro? Não, nenhum cachorro. Mais tiros. Devem ter acertado o muro. Bem feito, era amarelo.

Rosas. Elisa gostava delas. Das vermelhas. Essas são brancas. Eram. Quintal bonito. Também pularam o muro. Devem ter abandonado a moto. Era roubada mesmo. Outro muro amarelo. Haja mau gosto. A rua. Pessoas normais. Feias. Melhor correr para a direita. A direita sempre é melhor que a esquerda. Um menino de bicicleta. Nunca gostei de bicicletas. Essa não tem freios bons. Banco incômodo. Tiro.

Cigarros na sarjeta. Odeio quem fuma. Odeio quem polui a cidade. Mais um ferido. Bem feito, devia ser fumante. Está perto. Quase em casa. Quase casei com Elisa, também. Vadia, some e me deixa problemas. Celso. Sim, Celso é um problema. Irmãos são problemas. Cunhados principalmente. Elisa gostava dele. Ele nunca gostou de mim.

Tiros. Cair da bicicleta machuca. Está quente. Algo esquenta minha barriga. Sangue? Sim, é sangue. Não é mais possível correr. Andar. Sim, é possível andar. Joelho ralado. Crianças ralam o joelho. Eles estão correndo. Celso vem à frente. Mais tiros. Chão. O céu está azul. O sol amarelo. Não gosto de amarelo. Droga, eles estão rindo. Zombando. Vai me matar? Arma. Sim, vai me matar. Eu não sumi com Elisa. Elisa sumiu de mim.

Provocações. Pessoas correndo. A Arma falhou. Celso nunca limpa bem a arma. Mais um Fiat. Deviam acabar com essa marca. Não, não morro vendo um Fiat. Ômega. Sempre gostei desse carro. Tem bom porta mala. Não existem ômegas amarelos. Parece que a arma funcionou. Sim, funcionou. Será o fim? Sim, é o fim. Tudo por culpa daquela vadia da Elisa.