Patriotismo

Fevereiro 22, 2007

[Tudo o que foi escrito abaixo é baseado em meus posts na Valinor.]

Taí um assunto complexo. Não sei bem se já defini o que penso a respeito.

Acontece que de um lado há o argumento Patriotismo = Prisão, muito bem discutido e argumentado por Alex castro (do LLL), nos textos As Prisões: Patriotismo, As Prisões: Patriotismo II e demais textos desta seção.

De acordo com esta vertente,

A pátria é importante como trampolim, um ponto de apoio de onde se lançar para o mundo. Sem uma pátria como alavanca, o ser humano fica perdido, sem identidade, apátrida. Mas, quem se deixa prender muito ao chão, jamais alça vôo. Sempre galinhas, voando aos pulinhos, nunca águias.

Alguns idiotas vêm me dizer que sou anti-brasileiro e pró-americano. Que besteira, meu deus. Só me libertei do Brasil pois sou brasileiro. Se fosse japonês, teria me libertado do Japão. E quando alguém me aponta como os americanos são patrióticos, eu pergunto: “Olhem pra eles. É assim que vocês querem ser? Eu, não.”

O Brasil ainda é muito preso ao Brasil. Em poucos outros lugares do mundo se fala tanto de “nossa imagem no exterior” ou “nossa imagem lá fora”. Os ingleses não estão se importando com a sua imagem “lá fora”. Os nigerianos ou uruguaios também não. Mas, para um brasileiro, essa questão é fundamental.

Ou seja, um patriota é como uma galinha, que não consegue alcançar vôo e visualizar a grandeza do nosso mundo. Na verdade, ele prefere seu país, sua comida, suas origens, sua música e seu cinema sem nem ao menos conhecer com profundidade o que outras culturas têm a oferecer. E não se trata de radicalismo, há muita gente “normal” que odeia a “invasão” da língua inglesa no país, por exemplo.

Você torce pelo Brasil na copa do mundo porque é o melhor ou só porque o time é brasileiro? Você queria que Central do Brasil vencesse A Vida é Bela, porque o filme era superior? No nosso vestibular só caem autores brasileiros e portugueses porque não há nenhum outro autor no mundo que valha a pena ser estudado?

O patriotismo prende, sim e isto é fato. Quem não liga para a pátria tende a ser um indivíduo melhor, alguém aberto para novos ensinamentos, disposto a entender ações de outros povos por ser receptivo a sua cultura, com milhões de oportunidades de trabalho, em detrimento das que encontraria só no seu país de origem.

Além disso, sempre há pensamentos como o de George Bernard Shaw:

Patriotismo é a convicção de que seu país é melhor que os outros porque você nasceu nele.

Mas aí surge o outro lado, com argumentos muito racionais também!

Veja, eu nasci na minha casa, fui criado pelos meus pais e convivi com meu irmão. Por isso, eu amo meu pai, minha mãe, meu irmão, minha casa. Eu acho muito boa a nossa rotina, pois tive oportunidade de me adaptar a ela (e, inclusive, de interferir nela) e gosto da organização do nosso lar.

Vocês acham que teria sentido que eu, nascido na minha casa, amasse o meu vizinho, a minha vizinha e os filhos dele? Que tivesse apego à rotina do meu vizinho, a sua casa e a organização do seu lar? Eu acho que não.

Agora, um dia eu vou passar na faculdade e mudar para a capital. Lá, serei sustentado pelos meus pais e levarei comigo os valores, idéias e conceitos que aprendi na minha casa, no meu lar. Eu posso estar em SP, MG, PE ou no Qatar que ainda assim terei comigo os valores da minha família. Neste caso, também seria incoerente eu deixar de amar minha família só porque estou em outro lugar e alcancei um novo horizonte profissional.

No caso de um país a situação é semelhante, mas um pouco mais abrangente. Eu vivo no Brasil, nasci aqui, eu vi as transformações político-sociais dos últimos anos, trabalhei e paguei (minha família fez isso, pelo menos) impostos para que meu país, meu estado e minha cidade melhorassem. Eu analisei políticos, debati e votei querendo fazer o melhor para a minha pátria. Tenho em mim valores brasileiros, costumes brasileiros. Gosto da comida brasileira como eu gosto do feijão da minha casa.

Faria sentido e amar um outro país qualquer que não o Brasil, nestas condições? Faria sentido eu deixar de amar meu país, para alcançar o mundo?

E tem mais: eu posso estar nos EUA ou no Japão, mas ainda assim vou gostar da comida brasileira que sempre comi. Vou continuar amando a música de Chico Buarque que sempre ouvi e não vou me esquecer do português, no qual aprendi casa coisinha na escola. Por mais que eu me mude e consiga um emprego no exterior, minha cabeça é brasileira. Eu penso como um brasileiro, tenho valores e ideais de um brasileiro e gosto de coisas brasileira.

Por que, então, seria ruim eu querer o melhor para o meu país? Gerações de familiares meus trabalharam para que minha cidade existisse e para que o Brasil fosse melhor. A minha vida é boa como é porque muitos antes de mim investiram na sociedade em que estou inserido.

E a coisa é ainda mais complexa: você só ganha “impulso” para “voar” se o Brasil tiver estrutura para lhe dar isso. Por exemplo, você não consegue validar seu diploma para trabalhar no exterior se sua faculdade não for boa. E sua faculdade não seria boa se muita gente não tivesse dado o suor do rosto por ela.

É justo que eu usufrua de toda a estrutura do meu país, da minha escola, da minha faculdade e depois vá embora sem dar nada em troca? Soa um pouco sanguessuga, não? E se todos pararmos de investir no Brasil e de nos dedicarmos por ele, como ele estará daqui a 100 anos?

O Brasil não está legal, verdade. Há centenas e centenas de fatores que causam isso. Mas se nós brasileiros não quisermos trabalhar pelo país e não nos dedicarmos e ele, quem fará isso? Digo, a Inglaterra é um lindo lugar para se viver porque muitos ingleses se dedicaram a ela. Eu não me dediquei à Inglaterra, nem minha família. A Inglaterra não é boa por préstimos mundiais e sim porque ingleses se dedicaram a ela.

Esse lance de abandonar o país de origem para alcançar o mundo, além de ser muito difícil (já que um mínimo de patriotismo eu sempre terei, com minha língua e costumes brasileiros) é muito mais complexo do que parece.

Além disso, há muitos que se dizem cidadãos do mundo porque apreciam diversas culturas e não querem se prender a um país.

Mas alguém pode até gostar da cultura oriental e do prog holandês, mas meu ponto é isso não faz dele um cidadão do mundo. Você está aqui lendo um post em português, você provavelmente come comidas típicas brasileiras e tem valores que são típicos do Brasil. Quase tudo o que você aprendeu na vida, veio do Brasil ou dos brasileiros, isso tudo está em cada pessoa de uma maneira que é quase impossível de se retirar.

E eu não acho que isso não seja patriotismo. Eu nasci do Brasil, então gosto do Brasil. Se eu nascesse na Austrália, gostaria da Austrália, é o que argumentei quanto a nossa casa e família. Isso, na verdade, é o princípio básico do patriotismo: você tem amor pelo lugar onde nasceu ou onde vive.

A questão é que eu acho certo batalhar pelo Brasil (em sentido metafórico, nada de guerras) porque somente o Brasil batalharia por mim. Quero dizer, se um dia eu me apertar serão meus pais, meus amigos, meu governo que vai me acolher. Se eu aparecer machucado num hospital inglês, a primeira coisa que vão fazer é me extraditar.

Será que a Holanda te consideraria um holandês porque você gosta de prog holandês? A gente pode até se considerar um cidadão do mundo, mas isso não adianta nada se o mundo não me considerar um de seus cidadãos.

Eu posso ter o maior amor pela Holanda e lutar pelas criancinhas escravas chinesas, mas ainda assim há grandes chances de que eu seja proibido de pisar nesses países. Eu sei que sou um cidadão brasileiro porque reconheço isso e o Brasil tal como país também o faz. Quando alguém se considera alguma coisa, pode estar numa via de mão única.

Minha indecisão quanto a isso se dá porque ambos os lados são razoáveis. Digo, despreender-se de algo abre novos horizontes e nos dá possibilidade de evoluir. Mas, ao mesmo tempo, alguém precisa cuidar do meu país para que ele não acabe nesta geração.

No final, acho que a vida não é feita de “oito ou oitenta”. Temos que encontrar um meio termo saudável para vivermos bem…


Pai e Filho – Monstros

Fevereiro 10, 2007

Este texto precisa de uma introdução. Não porque ele seja complicado de entender ou algo do tipo, é só uma introdução explicativa.

Eu escrevi as linhas abaixo como uma redação escolar, lá pela sexta ou sétima série do ensino fundamental. O texto foi um dos escolhidos para compor um livro com redações de alunos, publicado algum tempo depois, ainda com o título “Filho e Pai”.

Já havia me lembrado dele no passado, mas fui incapaz de encontrar o livro da escola e não me lembrava bem do que estava escrito. Resolvi, então, criar algo nos mesmos moldes e publiquei Pai e Filho – Era uma Vez.

Eu, infelizmente, ainda não encontrei o livro, mas me deparei com o rascunho original, numa folha de papel de um fichário velho. Nele, há uma outra introdução, assim:

Durante à a madrugada, a porta do quarto do pai se abre e entra o filho no quarto:

Creio que hoje em dia já sei escrever um pouco melhor (melhor mas não muuuiito), mas achei legal deixar aqui registrado esse fragmento. Segue, então, o texto completo (e revisado). 

-Paiêêêê!

-O que foi, filho?

-Tem um monstro no meu quarto!

-Filho, não existem monstros.

-Não no seu quarto, no meu tem um montão!

-Quem disse?

-O Beto.

-Ah! O que é que seu irmão anda pondo na sua cabeça?

-Chiclete.

-Como?

-É, ontem ele colou um chiclete na minha cabeça…

-Oras, mas esse menino vai ver uma coisa!

-O quê?

-O que o quê?

-O que ele vai ver?

-Como assim?

-Você vai mostrar alguma coisa pro Beto e pra mim não!

-Eu só disse que vou dar uma bronca nele, filho…

-DISSE QUE ELE VAI VER UMA COISA!

-E vai!

-Buáááááá, eu também quero ver!

-Meu Deus, assim você me mata!

-Quêêêê?

-Quê o quê?

-Por que Deus ia querer te matar?

-Deus não, você!

-EU? EU NÃO!

-Eu sei, filho, eu sei…

-Sabe o quê?

-Que você não quer me matar…

-Ah, bom.

-Agora vai dormir.

-Posso dormir aqui com você?

-Outra vez?

-Por favor!

-Assim você não vai crescer nunca!

-Ótimo!

-Quê?

-É, eu não quero crescer.

-Esquece.

-Esqueço.

-Boa noite…

-Boa noite.


Rio Body Count

Fevereiro 8, 2007

O ilustre André Dahmer, criador do site Malvados e do recente Normal Project está agora com um (mais um!) novo projeto. Trata-se do Rio Body Count, que faz exatamente o que seu nome diz: conta os corpos do Rio.

Com base em notícias de jornais ou em indicações de outras fontes, o site é atualizado com o número de mortos e feridos na cidade do Rio Janeiro desde fevereiro de 2007.

O slogan chavão à lá Lula dos anos 80 (Não acreditamos em paz vigiada, queremos inclusão social!) é compensado pela excelente idéia de registrar as atrocidades que acontecem naquela cidade. Com o tempo o número irá subir e vai  assustar muita gente!

Nós vemos as notícias, mas não colocamos na ponta do lápis quais os prejuízos à humanidade que estes crimes causam. Agora há quem faça isso.

Just for the record: No momento deste post, havia 81 mortos e 39 feridos.

Update: Menos de 25h depois da publicação deste post, o contagem chega a 92 mortos e 40 feridos. Assustador.


Colecionando Tolkien

Fevereiro 5, 2007

Esses dias a Bruna me passou o link de uma garota que postou fotos de sua coleção de livros escritos por Tolkien num fotolog.

Como eu sou ridiculamente competitivo, logo que vi a tal foto contei quantos livros ela tinha. Oito. Corri para contar minha própia coleção e tenho de admitir que fiquei momentaneamente orgulhoso (e feliz) dos meus onze livrinhos.

Digo momentaneamente não só porque felicidade é uma coisa que tem como condição de existência uma vida curta. Aconteceu que eu lembrei da invejável coleção Tolkiendili que o Daeron (veja a coleção, veja a entrevista dele para a SdP) possui.

Inveja é uma coisa feia, admito. Nós não devemos desejar o que o próximo possui, Jesus ensinou. Mas, porra aquela coleção é demais de bonita!

Brincadeiras à parte, eu realmente pretendo montar uma coleção de verdade nalgum dia que só Deus sabe quando vai chegar. O problema de fazer essas coisas por aqui no submundo latino, é que materiais importados são caríssimos e há pouca coisa no mercado nacional.

De qualquer forma, eu deixo anotado o que quererei na minha coleção:

-Todos os livros de Tolkien: não adiantaria conseguir um monte de bonequinhos e apetrechos do tipo se eu não tivesse os livros.  Veja aqui a imensidão deste objetivo. Eu posso até deixar de lado alguns trabalhos acadêmicos, mas há traduções que ele fez, por exemplo, que me interessam muito.

-Edições diversas de cada obra: sim, este é o caso de se comprar um livro pela capa. Imagine que interessante se eu conseguisse reunir dezenas de edições dos livros de Tolkien? Várias capas, livros em várias línguas, isso tudo me atrai de maneira espetacular.

-Parafernálias: o Um Anel para começar. Depois os bonecos, bustos e afins lá do Sideshow Collectibles. Ainda quero bonequinhos mais engraçados (como os feitos em biscuit pela Angelique da Valinor) e também artefatos como espadas e machados das personagens dos livros.

-Estudos: farei (isso eu farei mesmo) um catálogo impresso com meus estudos, ensaios e textos preferidos.

-Imagens: também vou imprimir minhas ilustrações preferidas (já tenho algumas) e fazer um catálogo delas.

Se conseguir tudo isso, precisarei de uma estante bem bonita, para colocar minha coleção. ^^